Uma linda história de amor e superação. Super indico!
Boa leitura...
Resenha de obra: TEZZA,
Cristóvão. O filho eterno. 10 ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.
O romance contemporâneo “O filho
eterno”, de Cristóvão Tezza, que tem como cenário a cidade de Curitiba, no
Paraná. Narra a história de um pai que vive a experiência de ter um filho com
Síndrome de Down. O discurso subjetivo gira em torno da convivência entre pai e
filho, dos desafios de aceitação enfrentados pelo pai, dos estímulos provocados
na criança para que ela possa levar uma vida praticamente normal e do vínculo
afetivo que foi crescendo ao longo de vinte e seis anos.
Conforme sugere o título da obra, “O
filho eterno” descreve as condições de uma vida de confinamento entre Felipe,
uma criança diferente, e seus pais e, o quão prazeroso pode ser o sentimento de
superação das dificuldades diárias enfrentadas pela família, para proporcionar
condições melhores de desenvolvimento para aquela criança.
Segundo o descrito no romance, o
primeiro filho de um casamento é uma “aporrinhação monumental”, pois exige uma
série de cuidados, os quais são enumerados pelo autor, dando ênfase a um
momento significantemente mágico, mas que ao mesmo tempo, exige uma mudança
total na vida de um casal. O pai, que espera ansioso pela chegada do
primogênito ao mundo, descreve a sensação única e sufocante de ver nascer um
filho com trissomia 21, popularmente conhecida como mongolismo ou Síndrome de
Down.
Observa-se a dificuldade apresentada
pelo pai, em um primeiro momento, ao falar sobre Felipe com outras pessoas. O
medo das explicações que seriam inevitáveis diante das perguntas e a vergonha
que sentia do próprio filho, um “retardado”, são tratados de forma comovente,
envolvendo o leitor nas revelações sinceras dos sentimentos e pensamentos mais
íntimos de um pai que prefere a morte do filho, ao vê-lo crescer com uma
anormalidade sem cura.
Além do foco principal, aparece no
romance o acerto de contas do pai de Felipe com o seu passado. Uma espécie de
organização dos acontecimentos da sua vida de ator e de relojoeiro, da época que
morou na Alemanha e, ainda, das dificuldades e frustrações enfrentadas por um
escritor que recebe frequentemente, as cartas de recusa de editoras para o
pedido de publicação de seus livros, até a conquista de um cargo público em uma
universidade federal que proporciona sua estabilidade.
Descreve, também, uma série de
acontecimentos que se tornaram rotina para o casal desde o nascimento de
Felipe. A trama segue com a luta dos pais em busca de clínicas e médicos que
pudessem ajudar a criança, já que na época o assunto era pouco comentado. O pai
realiza um estudo aprofundado, em livros e dissertações, para saber mais sobre
a síndrome conhecida como “mongolismo” e sobre os cuidados que devem ser
tomados nos primeiros meses de vida de Felipe, além de pesquisar sobre os
estímulos que a criança deve receber para um melhor desenvolvimento, tudo isso
atrelado a uma vida de dificuldades, entre elas, a financeira. O pai, figura
importantíssima em todas as etapas do crescimento de Felipe, cria diversas
artimanhas para melhorar o desenvolvimento intelectual e motor do filho,
vibrando a cada evolução que ele apresenta, mesmo sendo mínimo o obstáculo
superado.
O enredo dramático e, ao mesmo tempo,
empolgante demonstra que, com o passar dos anos, Felipe tem uma crescente
evolução. Narra os primeiros passos da criança, que luta contra o equilíbrio
para manter-se em pé e as primeiras travessuras, como entrar no carro para
brincar e descobrir a buzina, da qual passa a ter medo depois de ser reprimido
pelo pai que pretende, apenas, parar com o barulho. Felipe passa a frequentar
uma escola infantil, onde convive, sem maiores dificuldades, com crianças
“normais”. Frequenta-a até os oito anos, quando a diretora chama os pais para
uma conversa. Para a preocupação da família, ela afirma que não pode mais tomar
conta de Felipe, em função da sua idade e da falta de profissionais para
ajudá-lo no seu desenvolvimento. O mundo volta a desabar na cabeça do pai que,
até então, estava tranquilo pela aparente “normalidade” do filho. A diretora
sugere à família procurar por uma escola especial, onde Felipe possa se
relacionar com crianças “como ele”.
A trama descreve ainda, as
dificuldades enfrentadas pela família para que Felipe tenha uma adolescência
praticamente normal, uma vez que, além da trissomia 21, ele terá que enfrentar
uma sociedade desinformada e cheia de pré-conceitos.
Destaca também que, por precisar do
apoio constante da família, Felipe desenvolve muito a parte da afetividade:
”Felipe abraça como alguém que se larga ao mundo de olhos fechados”, pensa o
pai, afirmando que essa possa ser uma forma de compreensão e de comunicação com
o mundo, já que o lado afetivo parece ser a única coisa na criança que não é prejudicada
pelo distúrbio genético.
A obra é indicada para todos aqueles
que gostam de uma narrativa dramática, crítica, envolvente e que, ao mesmo
tempo, narra situações cômicas do cotidiano de Felipe e seu pai. A graça com
que Felipe leva a sua “vida normal” e o carinho que o pai dedica diariamente ao
garoto, contagia e emociona o leitor, fazendo-o perceber que a convivência com uma
criança especial pode transformar-se em um grande aprendizado. Além disso, as
questões tratadas são verossímeis, o que aproxima ainda mais o leitor do
cenário criado pelo autor e dos acontecimentos narrados. O romance “O filho
eterno” coloca Cristóvão Tezza entre os melhores e maiores escritores
brasileiros contemporâneos.
Cristóvão Tezza nasceu em Lages, Santa
Catarina, mas vive em Curitiba dedicando-se à literatura. É também colunista do
jornal Folha de São Paulo e cronista da Gazeta do Povo, de Curitiba. Publicou,
entre outros, os romances “Trapo”, “O fantasma da infância”, “Breve espaço
entre a cor e a sombra” e “O fotógrafo”. Com a publicação de “O filho eterno”
recebeu vários prêmios importantes, entre eles, “Prêmio Jabuti – Melhor romance
2008”, “Prêmio Bravo! 2008” e “Prêmio São Paulo de Literatura – Melhor livro do
ano 2008”.
