sábado, 17 de janeiro de 2015

O filho eterno




Uma linda história de amor e superação. Super indico!
Boa leitura...


Resenha de obra: TEZZA, Cristóvão. O filho eterno. 10 ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.



O romance contemporâneo “O filho eterno”, de Cristóvão Tezza, que tem como cenário a cidade de Curitiba, no Paraná. Narra a história de um pai que vive a experiência de ter um filho com Síndrome de Down. O discurso subjetivo gira em torno da convivência entre pai e filho, dos desafios de aceitação enfrentados pelo pai, dos estímulos provocados na criança para que ela possa levar uma vida praticamente normal e do vínculo afetivo que foi crescendo ao longo de vinte e seis anos.

Conforme sugere o título da obra, “O filho eterno” descreve as condições de uma vida de confinamento entre Felipe, uma criança diferente, e seus pais e, o quão prazeroso pode ser o sentimento de superação das dificuldades diárias enfrentadas pela família, para proporcionar condições melhores de desenvolvimento para aquela criança.

Segundo o descrito no romance, o primeiro filho de um casamento é uma “aporrinhação monumental”, pois exige uma série de cuidados, os quais são enumerados pelo autor, dando ênfase a um momento significantemente mágico, mas que ao mesmo tempo, exige uma mudança total na vida de um casal. O pai, que espera ansioso pela chegada do primogênito ao mundo, descreve a sensação única e sufocante de ver nascer um filho com trissomia 21, popularmente conhecida como mongolismo ou Síndrome de Down.

Observa-se a dificuldade apresentada pelo pai, em um primeiro momento, ao falar sobre Felipe com outras pessoas. O medo das explicações que seriam inevitáveis diante das perguntas e a vergonha que sentia do próprio filho, um “retardado”, são tratados de forma comovente, envolvendo o leitor nas revelações sinceras dos sentimentos e pensamentos mais íntimos de um pai que prefere a morte do filho, ao vê-lo crescer com uma anormalidade sem cura.

Além do foco principal, aparece no romance o acerto de contas do pai de Felipe com o seu passado. Uma espécie de organização dos acontecimentos da sua vida de ator e de relojoeiro, da época que morou na Alemanha e, ainda, das dificuldades e frustrações enfrentadas por um escritor que recebe frequentemente, as cartas de recusa de editoras para o pedido de publicação de seus livros, até a conquista de um cargo público em uma universidade federal que proporciona sua estabilidade.

Descreve, também, uma série de acontecimentos que se tornaram rotina para o casal desde o nascimento de Felipe. A trama segue com a luta dos pais em busca de clínicas e médicos que pudessem ajudar a criança, já que na época o assunto era pouco comentado. O pai realiza um estudo aprofundado, em livros e dissertações, para saber mais sobre a síndrome conhecida como “mongolismo” e sobre os cuidados que devem ser tomados nos primeiros meses de vida de Felipe, além de pesquisar sobre os estímulos que a criança deve receber para um melhor desenvolvimento, tudo isso atrelado a uma vida de dificuldades, entre elas, a financeira. O pai, figura importantíssima em todas as etapas do crescimento de Felipe, cria diversas artimanhas para melhorar o desenvolvimento intelectual e motor do filho, vibrando a cada evolução que ele apresenta, mesmo sendo mínimo o obstáculo superado.

O enredo dramático e, ao mesmo tempo, empolgante demonstra que, com o passar dos anos, Felipe tem uma crescente evolução. Narra os primeiros passos da criança, que luta contra o equilíbrio para manter-se em pé e as primeiras travessuras, como entrar no carro para brincar e descobrir a buzina, da qual passa a ter medo depois de ser reprimido pelo pai que pretende, apenas, parar com o barulho. Felipe passa a frequentar uma escola infantil, onde convive, sem maiores dificuldades, com crianças “normais”. Frequenta-a até os oito anos, quando a diretora chama os pais para uma conversa. Para a preocupação da família, ela afirma que não pode mais tomar conta de Felipe, em função da sua idade e da falta de profissionais para ajudá-lo no seu desenvolvimento. O mundo volta a desabar na cabeça do pai que, até então, estava tranquilo pela aparente “normalidade” do filho. A diretora sugere à família procurar por uma escola especial, onde Felipe possa se relacionar com crianças “como ele”.

A trama descreve ainda, as dificuldades enfrentadas pela família para que Felipe tenha uma adolescência praticamente normal, uma vez que, além da trissomia 21, ele terá que enfrentar uma sociedade desinformada e cheia de pré-conceitos.

Destaca também que, por precisar do apoio constante da família, Felipe desenvolve muito a parte da afetividade: ”Felipe abraça como alguém que se larga ao mundo de olhos fechados”, pensa o pai, afirmando que essa possa ser uma forma de compreensão e de comunicação com o mundo, já que o lado afetivo parece ser a única coisa na criança que não é prejudicada pelo distúrbio genético.

A obra é indicada para todos aqueles que gostam de uma narrativa dramática, crítica, envolvente e que, ao mesmo tempo, narra situações cômicas do cotidiano de Felipe e seu pai. A graça com que Felipe leva a sua “vida normal” e o carinho que o pai dedica diariamente ao garoto, contagia e emociona o leitor, fazendo-o perceber que a convivência com uma criança especial pode transformar-se em um grande aprendizado. Além disso, as questões tratadas são verossímeis, o que aproxima ainda mais o leitor do cenário criado pelo autor e dos acontecimentos narrados. O romance “O filho eterno” coloca Cristóvão Tezza entre os melhores e maiores escritores brasileiros contemporâneos.

Cristóvão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, mas vive em Curitiba dedicando-se à literatura. É também colunista do jornal Folha de São Paulo e cronista da Gazeta do Povo, de Curitiba. Publicou, entre outros, os romances “Trapo”, “O fantasma da infância”, “Breve espaço entre a cor e a sombra” e “O fotógrafo”. Com a publicação de “O filho eterno” recebeu vários prêmios importantes, entre eles, “Prêmio Jabuti – Melhor romance 2008”, “Prêmio Bravo! 2008” e “Prêmio São Paulo de Literatura – Melhor livro do ano 2008”.